Bernardo Silveira formou-se em Gastronomia enquanto ainda vivia em Belo Horizonte. Fez um pouco de tudo aqui e ali, mas trabalhou principalmente com serviço de salão em uma padaria/bistrot da cidade, em eventos e feiras, degustações de vinho e em seu próprio (projeto de) restaurante, O Itinerante. Fugiu das horas em pé diante das mesas para horas em pé diante de mesas, pessoas, garrafas, computadores trabalhando em uma distribuidora, que logo exportou-o para São Paulo, onde vive hoje e trabalha em uma importadora. Cursou dois níveis de WSET em Santiago do Chile e está se deseperando com o quanto não vem deixando o bumbum quadrado para o Diploma Level da mesma instituição. Enquanto isto, finge que faz de tudo para se manter magro enquanto engorda bebendo e comendo por aí.
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Lendo hoje o teaser “Screwcaps are best: Decanter verdict” para a matéria deste mês da revista inglesa - 50 Reasons to Love Screwcap - que conta como todos os editores, degustadores, faxineiros e estagiários da revista consideram screwcap a melhor forma de fechar vinhos, me intrigou um pouco a maneira um tanto… festiva, de publicarem a própria opinião.
Mesmo sabendo que esta é considerada a mais imparcial e independente revista do meio e mesmo sendo pessoalmente a favor de uma utilização bastante ampla de screwcap, fiquei me coçando com a quantidade de confete que o editor imprimiu (trocadilho infame) à opinião da redação, já que este é um tema altamente econômico e certamente lobístico do mundo do vinho.
O mercado brasileiro, é claro, segue refutando as tampas como se nada houvesse acontecido, embora tenha aprendido bastante rapidamente a devolver vinhos “estragados” independente da origem do problema. Entende-se: o charme do saca-rolhas é grande e a insegurança sobre a opinião da mídia (justificadamente) é muita, enquanto nariz e oportunidade para aprender a encontrar defeitos falta…
Há pouco tempo recebi de um produtor australiano um email solicitando que decidíssemos qual seria nossa posição oficial sobre screwcap para o próximo “período”, tendo em vista que a linha de engarrafamento dele já está voltada para o uso das tampas de rosca e o custo de manter uma linha ambivalente está crescendo muito.
De acordo com o produtor, dos pouco menos de 50 países que compõem o mercado de seus vinhos, mais ou menos a metade insiste em utilizar a rolha ou está em dúvida ainda sobre como proceder (Argentina, Uruguay, Barbados, Brasil, China, Croácia, Fiji, França, Islândia, India, Indonésia, Israel, Malásia, México, Nova Caledônia, Noruega, Ilhas do Pacífico, Romênia, Suíça, Taiwan, Turquia, Emirados Árabes Unidos utilizaram rolhas em todos os seus vinhos tintos até o momento, enquanto Bélgica e Luxemburgo já solicitaram uma transição gradual nos próximos 3 anos e todos os grandes consumidores mas nem tão grandes produtores já recebem TODA a linha - inclusive rótulos de alto calibre e custo - fechada a rosca.
É importante notar que entre os países que ainda resistem à screwcap (particularmente em vinhos australianos, notadamente reconhecidos por utilizar amplamente o fechamento alternativo), são mercados muito significativos para o vinho somente a França e a Argentina (nenhum dos outros ultrapassou o próprio Brasil em volume de consumo em 2005!).
Volto a dizer, então: é fato que screwcap, além de baratear a produção, garante uniformidade entre as garrafas e anula o risco do vinho se deixar afetar pelo TCA e vale lembrar que a Austrália vem engarrafando seus vinhos assim já há 30 anos e praticamente toda a produção neo-zelandesa recebe as tampinhas. Por outro lado, ninguém sabe ainda como irão se comportar os “grandes” vinhos com o passar do tempo. O que não dá pra engolir é gente falando que “não compro vinho com tampa de rosca”…
Com este título, a coluna de vinhos do Estado de São Paulo fechou o último ano avaliando alguns dos mais renomados espumantes do mercado e explicando, pela enésima vez, que nem tudo que borbulha é champagne.
Eis que hoje o site da revista inglesa Decanter traz uma notícia de alegrar os corações dos produtores da famosa região francesa e mostra a liçãozinha que o governo belga dá (e em teoria o de qualquer país da OMC também deveria) para aqueles que ainda insistem em fazer uso indevido de nomes como Champagne, Porto, Jerez, entre outros.
O video abaixo (de propriedade da Decanter.com) ilustra com maior eloqüência o que alguns produtores (inclusive brasileiros) deveriam esperar para os seus produtos:
De acordo com o presidente do CIVC - o órgão regularizador da região da Champagne -, “desde a implementação de leis mais rigorosas, agentes alfandegários e de fronteira em toda a Europa apreenderam e destruíram milhares de garrafas nos últimos 4 anos que traziam ilegalmente o nome Champagne em seus rótulos, incluindo produtos dos Estados Unidos, Argentina, Rússia, Armênia, Brasil e Etiópia”.Alguns produtores brasileiros, tão preocupados em obter do mercado um reconhecimento pela crescente qualidade, deveriam ter em mente que, no mundo do vinho, o que não está dentro da garrafa também conta - e muito -, inclusive respeito pelo consumidor.
Dentro do eterno embate entre a tradição e a inovação, o vinho ocupa um espaço de destaque. Um dos produtos mais antigos da história da humanidade (considera-se que exista vinho desde o surgimento das primeiras civilizações e há provas de produção planejada há cerca de 10.000 anos), é para muitos um dos últimos laços da cultura humana com a natureza, uma união evidente entre o “milagre natural” e o engenho do homem.
Talvez a mais impactante discussão (há várias relacionadas ao assunto) seja a da manipulação do vinho. Enólogos, apreciadores e críticos mantêm um judô verbal sobre o uso das mais avançadas técnicas de produção para a elaboração da bebída mítica e cada lado apresenta argumentos sólidos em defesa da própria opinião.De acordo com Jamie Goode, vencedor do prêmio “Glendiffich Wine Writer of the Year” de 2007,
“o vinho é uma das raras bebidas alcoólicas que, uma vez que as uvas tenham sido colhidas e colocadas em um vasilhame, pode mais ou menos produzir a si mesmo. Porém, os enólogos quase sempre intervêm de várias maneiras para conseguir determinada qualidade ou objetivos estilísticos.”
Goode me parece ser uma boa referência quando se trata de polêmicas: é um realista, defensor do equilíbrio. Defende a busca pela pureza, o uso da tradição, em combinação com o que a ciência e a tecnologia pode oferecer de melhor.
São raros os que analisam a situação de maneira (o máximo possível) imparcial:
Há os que ouvem meias-histórias e dizem meias-verdades;
Há os caça-níquel, que pouco se interessam pela cultura do vinho, pela natureza do lugar onde é produzido e pelas nuances e sutilezas de um produto único e simplesmente querem aproveitar um nicho de mercado em crescimento e lucrar o máximo possível com ele.
Há retrógrados e apegados ao passado, que se negam a aceitar mudanças e incorporar as novidades.
E há também todo tipo de experimentadores, que buscam a excelência e a qualidade, seja através da máxima pureza que da tecnologia de ponta.
As inúmeras técnicas aplicadas à produção enológica vêm se acumulando desde tempos imemoriais: o uso da madeira, por exemplo, é de uso comum para o armazenamento do vinho desde os tempos do Império Romano, ainda que seus efeitos sobre a bebida não fossem plenamente compreendidos. Algumas dessas técnicas se consagraram e tornaram-se quase indispensáveis para a produção moderna, em busca de vinhos rentáveis e apropriados ao paladar atual, embora muitos se esqueçam, com alguma freqüência, de quão intrusivas as mesmas podem ser.
Ao longo dos próximos artigos, vou procurar definir algumas dessas técnicas, suas vantagens e desvantagens e, em particular, qual a diferença entre o uso despropositado e a sua devida aplicação.