Peripécias Palacescas |

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TCA ou Tentativa de Conseguir vinho Adequado para beber

Saturday Feb 16, 2008
Como vimos anteriormente, uma grande dificuldade que os restaurantes (mas também as lojas de vinho) possuem é lidar com a famosa situação em que um cliente declara que o vinho não está bom. Mas há dois lados em toda moeda e, algumas vezes, há REALMENTE algum problema com o vinho.

Certa vez, visitando para jantar com algumas pessoas um reluzente restaurante, após duas ou três garrafas do mesmo rótulo, serviram-nos uma que, de fato, não ia bem. Avisei ao garçon que gostaríamos de uma nova garrafa e este prontificou-se a chamar o maître, em teoria o mais capacitado no assunto, uma vez que a casa não possuía um sommelier.

O maître já se aproximou da mesa “quente”: Há algum problema? - inquiriu ao homem mais velho da mesa, que certamente não era eu. Apontando para mim, meu amigo disse: Não aprovaram o vinho! - ao que o exemplar profissional do serviço de mesa, certamente cansado de ver almofadinhas recusarem garrafas por bel-prazer, sem muita delicadeza me perguntou: Qual é o problema?

Pra resumo de história, muito a contra-gosto (e após fazer-de-conta que provou o vinho) o maître trouxe-nos uma nova garrafa sem me olhar muitas vezes nos olhos.

Existem alguns problemas que podem realmente se apresentar em uma garrafa de vinho, mesmo dos produtores mais conscienciosos e dos restaurantes melhor preparados, sendo que o principal e mais famoso deles é a contaminação por TCA.

TCA (ou 2,4,6 tricloroanisol em quimicalês) é uma substância formada por uma reação química que ocorre naturalmente na cortiça, o material que compõe as rolhas. O grande “perigo” - e o maior problema das rolhas de cortiça - é que esta substância afeta consideravelmente o vinho mesmo em baixíssimas concentrações. Para se ter uma idéia, assume-se que a maior parte das pessoas consegue perceber (mas talvez não identificar) o efeito do TCA em concentrações tão baixas quanto 5 partes por trilhão (ppt), o que seria equivalente, em medida de tempo, a um SEGUNDO em 6.400 ANOS!!!!

O que faz o TCA?

O TCA é o responsável pelo que os especialistas chamam de “bouchonée” - algo como arrolhado, em francês. Por ser freqüentemente decorrente do metabolismo de micro-fungos, a substância nos parece ao nariz desagradável e ofusca os perfumes e os sabores do vinho com outros que normalmente consideramos desagradáveis e normalmente nos fazem pensar em mofo e papelão molhado.

Quão Freqüente é o TCA?

É um assunto polêmico. Diferentes estudos, com diferentes metodologias, mostram variadas porcentagens de contaminação por TCA. Considera-se normalmente que algo em torno de 7% dos vinhos fechados com rolha sejam contaminados por TCA.

Em uma degustação recente em São Paulo, provei vinhos de 17 diferentes regiões de todo o mundo. Eram 23 diferentes rótulos (já excluídos os com vedantes alternativos e não considerando os brancos) que compunham um total de 113 garrafas: desse total, 4 estavam contaminadas, ou seja, algo como 3,5%. Não é estatísco, mas dá pra ter uma idéia.

É possível identificar ou evitar o TCA?

Não para nós meros consumidores… Existem vários estudos e alguns métodos de “eliminação” do TCA na origem, ou seja, na produção das rolhas. Até o momento, a única forma para se descobrir se um vinho foi afetado é abrindo e provando!

Conclusão

Antes de tudo, não se esqueça: não gostar de um vinho não é motivo para devolvê-lo. Se o local em que você adquiriu sua garrafa possui profissionais qualificados, eles poderão avaliar a garrafa suspeita e com prazer irão substituí-la de imediato se o vinho estiver defeituoso.

Em segundo lugar, pense com mais carinho nos vedantes alternativos: eles podem não ter o charme da rolha, mas evitam surpresas desagradáveis na hora de beber seu vinho predileto.

At last but not at least, experimente muitos vinhos! É a melhor forma de aprender sobre eles e identificar problemas.

Tags: atendimento em restaurante, bouchonée, cortiça, defeitos do vinho, rolha, tca

Sobre Tampas e Roscas

Wednesday Apr 18, 2007
Devido à absoluta falta de produção durante o mês de abril, seguem textos elaborados para o site do enófilo Gerson Lopes. Quem sabe em Maio não teremos novidades…

Uma das maiores polêmicas do mundo viti-vinícola, a tampa de rosca ou screwcap, em inglês, está invadindo nossas casas (ou adegas, seria melhor). Produtores de todo o mundo, desde os pioneiros neo-zelandeses e australianos até os tradicionalistas franceses estão substituindo por experimentação, plena confiança ou resignação, suas tradicionais rolhas de cortiça pelas tampinhas metálicas de girar.

Robert Parker, o mais renomado guru dos vinhos em todo o mundo, não deixou passar em branco quando fez suas “12 predições sobre mudanças sísmicas que influenciarão a forma como compramos, o que compramos e quanto pagamos” em vinho, na revista americana Food and Wine. Segundo ele “vinhos engarrafados com rolhas serão minoria em 2015”, pois mais e mais vinícolas de todos os níveis estão mudando para as roscas os vinhos a serem consumidos entre 3 e 4 anos (cerca de 95% por cento dos vinhos do mundo).

O chefe de adega Michael Kerrigan se surpreende com a resistência de parte do público em entrevista à Liquor Watch da Austrália: “É estranho que exista, uma vez que algumas das mais caras bebidas alcóolicas do mundo (single malts, etc.) são fechadas com rosca e têm total aceitação do mercado”.

O que as tampas de rosca possuem de tão importante que tantos produtores optam por substituir o charme das antigas rolhas por tampinhas metálicas?

1. Em primeiro, e mais importante, lugar: elas não afetam o vinho.

As rolhas, elaboradas com a casca do sobreiro, estão sujeitas a fungos e contaminações que podem modificar diretamente o vinho.

2. Não estão sujeitas a movimento.

Por serem seladas com alta-pressão, mudanças de temperatura e pressão interna da garrafa não podem permitir a entrada de oxigênio nas garrafas, como podem quando são suficientes para movimentar as rolhas.

3. O isolamento é completo, impedindo a oxidação prematura do vinho.

 

 

De forma que podemos esperar de cada garrafa exatamente o que se declara dela, sem variações abruptas de características e de qualidade.

Sem dúvida nenhuma o vinho está imageticamente relacionado às rolhas de cortiça e aos saca-rolhas, ao ritual do corte das cápsulas e ao trabalhoso (e às vezes cansativo) esforço de se retirar a rolha. Não teremos, porém, escapatória: cada vez mais vinhos, de diferentes níveis de qualidade utilizarão as novas, seguras, mas menos estéticas tampas de rosca.

A Screwcap Initiative, grupo neo-zelandês de viti-vinicultores que difunde a utilização da tampa de rosca, possui um completo site com todas as informações necessárias sobre o funcionamento e utilização das tampas de rosca.

Tags: bouchonée, defeitos do vinho, rolhas, rolhas sintéticas, screwcap, tca, vedantes

De Frescuribus non Proliferandus Est (ou Deveriabus Ser) II

Friday Mar 30, 2007

Se você não leu a primeira parte, clique aqui.

Lição Três: Sobre como eu, que estou pagando e não gostei do vinho, mando devolver a garrafa, que está ruim.

Pois é, meus amigos. Eu gostaria de ter um “dinheiros” (D$, moeda corrente no mundo da imaginação dos clientes de restaurantes) para cada garrafa bouchonée que foi tomada como se fosse um Grand Cru Classé de alguns milhares de dólares, enquanto inúmeras garrafas de vinhos em excelente estado de conservação são devolvidas aos garçons por “certamente estarem avinagradas”.

1. Bons produtores, bons importadores e bons restaurantes MUITO raramente permitem que um vinho que possa estar “avinagrado” chegue até mesa.
Para que o vinho se torne GRADUALMENTE vinagre, é necessário que ele entre em contato com a bactéria que realiza a fermentação acética E, vejam bem, E haja contato com o oxigênio. Ou seja: garrafa limpa, uvas saudáveis e rolhas de mínima qualidade não geram vinhos avinagrados assim, à toa.

2. Reconhecer um vinho bouchonée requer treino. Algumas vezes, não se percebe no nariz, mas sim na boca. Outras vezes, aromas desagradáveis de redução (fenômeno físico-químico que acontece na ausência de oxigênio) ou por um excesso de conservantes utilizado pelo produtor se apresentam no início mas logo desaparecem, confundindo o desavisado.

3. (e mais importante do que todo o resto)

Não gostar do vinho não implica em poder devolvê-lo. Se foi uma indicação do sommelier ou garçon, faça-o saber de quais características no vinho você não gosta e pense duas vezes antes de aceitar nova sugestão, mas não obrigue os outros a arcar com seu próprio gosto.Lição Quatro: Ainda nao entendi o que é boxonê, mas vinho com rolha de prástico eu não tomo.
ou
Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que protege é cortiça.A rolha ainda é, sim, o melhor dos vedantes para as garrafas. Porém, é também um produto natural, escasso, de alto custo de produção (um sobreiro leva 40 anos para produzir a primeira casca de boa qualidade e depois produz somente mais 4 “safras”, uma a cada dez anos) e sujeito a contaminações que podem afetar o vinho.Bouchonée é, portanto, o vinho que foi afetado pela rolha ou, mais precisamente, por uma substância produzida por um microorganismo, chamada TCA, ou tri-cloro-anisol. As rolhas sintéticas, assim como as tampas de rosca e outras formas de vedação menos conhecidas, foram criadas para procurar emular as propriedades da rolha diminuindo o custo e anulando o risco de contaminação.

Embora ainda se saiba bem pouco sobre alguns aspectos dos novos vedantes, há experiências bem-sucedidas com todos eles, inclusive com relatos (muitos) de vinhos submetidos a guarda de 30 anos com tampas de rosca.

Donde concluo eu que, se o vinho está bom, não interessa como foi fechado…

Para ler a terceira parte, clique aqui.

Tags: bouchonée, cliente, defeitos do vinho, restaurante, rolha, screwcap, serviço do vinho, tca, vedantes

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