Peripécias Palacescas |

Já comi, já bebi, que que eu tô fazendo aqui?
RSS Feed

Descorchados 2008 - Um guia múltiplo

Thursday Sep 4, 2008

Patricio Tapia é a principal referência no meio enológico quando se trata de vinhos da América do Sul. Formado em jornalismo no Chile e em enologia em Bordeaux, Tapia é correspondente de publicações do calibre de Wine & Spirits (EUA) e Prazeres da Mesa (Brasil), além de ser o responsável pelos principais itens sobre a produção sul-americana no livro-bíblia dos vinhos, The Oxford Companion to Wine, de Jancis Robinson. Seu guia Descorchados, publicado desde 1999, é talvez a mais transparente publicação de vinhos do Chile: com o objetivo claro de informar às pessoas como é que ele, pessoalmente, vê os vinhos de seu país, o guia é um indicador de gosto pessoal de um degustador técnico e respeitado.

Para a edição de 2008, Tapia preparou uma verdadeira reviravolta dedicada a completar o trabalho: convidou três outros degustadores de grande capacidade e integrou ao guia os vinhos da Argentina, unificando em um só livro duas potências da enologia mundial. Héctor Riquelme e Tapia selecionaram os vinhos chilenos, Fabrício Portelli os argentinos e, representando o Brasil, Jorge Lucki colaborou para o ranking dos 50 melhores vinhos dos Andes. De acordo com Tapia, “os três, de seus respectivos  pontos de vista, são as pessoas que mais respeito deste lado do mundo quando se trata de degustar.”

Convidados internacionais se uniram aos degustadores Patricio Tapia e Hector Riquelme.

Convidados internacionais se uniram aos degustadores Patricio Tapia e Hector Riquelme.

Ranking Argentina - Chile - 50 melhores vinhos dos Andes

Unindo os 25 melhores vinhos de cada país em degustação às cegas, o grupo procurou eliminar distorções em debates enológicos. Segundo Lucki, “a cada série de cinco vinhos, as notas e os critérios pessoais adotados por cada um eram discutidos, permitindo eliminar possíveis falhas de interpretação e chegar, por consenso, a um resultado mais equilibrado e digno de confiança”.

A lista de tops está composta pela elite dos vinhos sul-americanos dos dois países. Abaixo, uma seleção pessoal dos vinhos que eu conheço e mais me agradam entre os selecionados para o ranking:

De Martino Single Vineyard Chardonnay - Limarí, Chile

Antiyal  - Maipo, Chile

Achaval Ferrer Quimera - Mendoza, Argentina

Pérez Cruz Reserva Cabernet Sauvignon - Maipo, Chile

Viu Manent Viu 1 - Colchagua, Chile

De Martino Single Vineyard Carménère - Maipo, Chile

Pérez Cruz Quelen - Maipo, Chile

Gala 1 - Luján de Cujo, Argentina

Colomé Malbec/Cabernet/Tannat - Salta, Argentina

Salentein Numina Malbec/Merlot - Vale de Uco, Argentina

Tags: Argentina, Chile, Descorchados, Fabrício Portelli, Guia de Vinhos, Hector Riquélme, Jancis Robinson, Jorge Lucki, Patricio Tapia, Prazeres da Mesa, Tapia, Top, Vinho, vinhos, Wine & Spirits

Sobre a Qualidade e o Preço - Continuação

Thursday Jun 14, 2007
Para ler a primeira parte deste artigo, clique aqui.
Vimos rapidamente alguns dos fatores que determinam os custos de produção do vinho, mas antes que o precioso líquido chegue às mãos dos consumidores, há ainda uma série de etapas a serem vencidas.
Antes de tudo, embalagem:

  • Beleza não põe mesa, mas as garrafas mais bonitas com rótulos charmosos e elegantes sem dúvida são convidativas e atraentes. Mas têm um custo.
  • Embora muitas pessoas digam não ligar para embalagem, há fatores objetivos relacionados à ela:

  • Garrafas mais pesadas, de vidro grosso e resistente, dos vinhos de mais alta qualidade, não são simplesmente objetos fetichistas para exibir poder e status: garantem uma proteção eficiente a um vinho que tem potencialmente muitos anos de vida - e um custo elevado demais para se arriscar a quebrar por qualquer coisa.

 

  • As meias-garrafas, tão úteis para muitos, mas incompreendidas por quase todos, normalmente custam 70% - e não 50% - do valor total de uma garrafa. Os custos de insumos secos, como garrafa, rolha, rótulo, são os mesmos dos para garrafas de 750 ml. Os de mão-de-obra, transporte, taxas alfandegárias, também. Pior: muitas vezes, taxas são acrescidas em função do valor reduzido do produto líquido…

Em seguida, o frete. Muitos dos vinhos que consumimos fazem uma “discreta” viagem até o nosso país. Europa, Austrália, África do Sul…

  • O Chile, que muitos pensam ser vizinho, está na verdade a uma distância de entrega considerável: os vinhos navegam pelo Pacífico até fazerem a volta pelo sul, chegando até nós pelo Atlântico.
  • Trazer vinhos dos Estados Unidos custa mais caro que trazê-los da Europa!
  • A Argentina poderia ser o que se salva, pois está muito próxima geograficamente e recebe um descontinho nos preços por conta do Mercosul, o que nos leva a tratar dos impostos:

que talvez sejam o ponto de maior impacto para o mercado.

Muitos apreciadores, quando têm a possibilidade de fazer uma viagem a um país produtor, se dão conta da IMENSA diferença de preços de lá para cá. Muitas vezes um vinho pode ser comprado com diferenças de até 300%!!!

O que a maioria não sabe é que, antes de pagar ao produtor, um importador no Brasil tem de pagar - além do frete - ao governo.
Fato é que, assim que o vinho entra no porto, o importador tem que pagar à vista, em dinheiro, transferência imediata, pegou-pagou, o equivalente a 115% do valor daquele carregamento!
E, com “valor do carregamento”, quero dizer TODO o custo que esteja declarado, somando-se o frete e quaisquer taxas que tenham sido embutidas na nota (vocês não acham que o governo do país de origem ia perder uma boquinha dessas também, não é?).
Não se esqueçam de considerar as diferenças tributárias internas (Minas Gerais e sua famosa “Substituição Tributária”) e das distâncias e condições de frete ao reclamar também das diferenças de preço entre os estados!

Comecem a fazer uns cálculos simples e verão que, até que o vinho possa chegar às mãos do consumidor, não há muitas formas de conter os preços com relação ao valor original. Por outro lado, sabendo de que forma se constrói o preço, não somente valorizamos a garrafa que estamos adquirindo como podemos procurar nos proteger de eventuais abusos que o mercado impõe.

Tags: beleza, Chile, custos, embalagem, europa, preço, rolha, viagem, Vinho

Visita à Bodega Araucano

Friday Apr 20, 2007

Mais um texto publicado no site do Gerson, foi escrito durante minha viagem ao Chile, em Novembro do último ano. Bom proveito!

A claridade ofuscante ressalta a sequidão do solo, terra solta poeira pura, ao longo dos três quilômetros que o amadorismo me forçou a caminhar. A brisa do Pacífico alivia o calor com sopros intermitentes, de modo que os vinte minutos de caminhada até a sede da Hacienda Araucano não acabem por me cozinhar.

A região, o Vale de Lolol, é um pedaço de terra seca, de vegetação retorcida, serpenteando em meio às colinas da cordilheira costeira, a cerca de quarenta quilômetros do mar. Pela manhã a influência marítima se faz visível, com densas brumas que refrescam e umedecem os 16 hectares de jovens e variadas cepas para experimentação que os irmãos Lurton já têm plantadas em torno do galpão em forma de chalé achatado e cores típicas das casas da região.

Ao me aproximar do portão e começar a caminhar entre as videiras, observo os quatro camponeses Lololinos trabalhando nas vinhas, retirando os talos de folhas excessivos e limpando a terra. Ao fundo, uma escavadeira e um trator preparam as encostas para que, ao longo do próximo ano, o “jovem e precoce” enólogo Luca Hodgkinson com sua equipe possa dar continuidade a duplicação da plantação de Pinot Noir, Carménère, Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Syrah, Sauvignon Blanc que, ao longo dos próximos cinco a dez anos serão atentamente observados e cujos vinhos talvez finalmente revelem a vocação do vale.

Dentro da bodega o pé direito elevado garante uma temperatura agradável, mas quase não consigo enxergar pelo contraste de luz. O barulho ritmado da bomba de água quente lavando as garrafas é a única manifestação de vida lá dentro e, enquanto meus olhos se habituam à sombra, começo a identificar o maquinário de trabalho da pequeníssima boutique de vinhos.

Embora envolta na amplitude do vale de Lolol, a bodega tem porte de produção de boutique: duas pequenas prensas hidráulicas verticais, uma pneumática, dois tanques de cimento revestido e cerca de 6 de aço fazem todo o trabalho de produção dos vinhos mais finos, que completam sua maturação nas cerca de 370 barricas francesas de 255 e 500 litros.

Em pouco tempo Luca, um rapagão loiro alto, de óculos escuros sobre os cabelos e sorriso jovial e divertido me está guiando pelo processo de produção e me mostrando as plantas bem jovens que mal começaram a produzir uvas. Filho de inglês e francesa, nascido e crescido na Espanha, formado na França, o responsável por toda a produção dos Lurton no Chile (conduz o cultivo e processamento de uvas em três diferentes vales) tem somente 24 anos e é um autentico cidadão do mundo. Descreve com entusiasmo o trabalho que faz e como Jacques Lurton mantém, mesmo no Novo Mundo, a cultura do vinho do Velho Mundo. Os vinhos, embora mostrem a potência, a cor, a energia dos países “novatos”, não perdem por nada a elegância e a fineza que os europeus sabem imprimir à bebida que lhes acompanha já há milênios.

Degustamos juntos praticamente toda a linha Araucano, enquanto falávamos de Chile e França, ltália e Brasil, de preços e comida, de gente e videira. Delicioso o frescor, tipicidade e equilíbrio dos três Sauvignon Blanc (Los Arbolitos, Araucano e Gran Araucano), destacando-se o mais simples deles pela admirável relação custo-benefício e o mais elaborado pela deliciosa textura e a quantidade de frutas que seguem aparecendo durante a degustação.

Clos de Lolol, um corte de Cabernet e Carménère elaborado somente com uvas do Vale de Lolol, mostra com eloqüência tudo que Luca queria dizer: com uma fineza e equilíbrio dignos de um nobre europeu e a vivacidade e energia de um latino americano que, apesar de já apresentar os traços de seus quatro anos de vida ainda possui vigor para mais anos na garrafa.

Depois da degustação, que também incluiu os outros três vinhos da linha Araucano e o Carménère Premium “Alka”, fui convidado a almoçar na Casa de Hóspedes da Hacienda, onde a simpática Silvia nos serviria uma receita que, com orgulho, ela declarou inventada ali mesmo, para aquele almoço: Peru ao forno com passas, amêndoas, bacon e ameixas, acompanhado de purê de acelga, escoltado com segurança e delicadeza pelo Clos de Lolol.

A Casa de Hóspedes é uma construção que segue os padrões da “arquitetura” da região, com um lado todo em vidro que dá uma visão ampla (e estonteante) de todo o vale. Ali se recebem os convidados da Bodega, inclusive para pernoite (hmm, o que a falta de comunicação não nos faz perder…).

Tags: Bodegas Araucano, Chile, Lolol, Viagens

Strong theme by partnerstvo & partnership & aerography & free wp themes.