Peripécias Palacescas |

Já comi, já bebi, que que eu tô fazendo aqui?
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The Paulistan Paradox

Sunday Feb 24, 2008
Devo dizer que São Paulo é impressionante. É uma metrópole, cosmopolita, com todos os seus entra-e-sai de gringos, paraíbas e paulistanos. Rica, pobre, grande até perder de vista, possui aproximadamente escandalosos

restaurantes.

. Doze mil e quinhentos.

Para uma pessoa como eu, que veio do interior, lá de Roça Grande das Minas Gerais - também conhecida como Belo Horizonte ou Capital do Ande-Cem-Metros-e-Pare-No-Sinal - doze mil e quinhentos, vejam bem, doze MIL e quinhentos restaurantes é uma quantidade interminável. Tem paulistano que diz que São Paulo é a . Tem gringo que diz que não há lugar em que se coma melhor no mundo.

Pois bem: eu vim pra cá, todo canastra, mala e cuia na cabeça, no cata-jeca da modernidade, o avião da Gol. Vim com as pernas bambas, misto de angústia e excitação pela chegada à Meca alimentícia, ao ponto-de-convergência, pólo magnético de todo o Brasil.

E o que eu vi foi uma Babel da culinária: há restaurantes de comida japonesa (em proporção de 1 para cada semáforo de Belo Horizonte), de comida mongol (não, não estou sendo politicamente incorreto), de comida sueca (e eu que achava que eles eram planos e estéreis!), de “fala-qualquer-lugar-que-tem”.

Vamos por partes:

O paradoxo de São Paulo é que, com toda essa variedade, com toda essa oferta, com todo esse dinheiro, é relativamente difícil sair satisfeito de um restaurante da cidade. O que é chocante, na verdade, é a tamanha inconsistência da relação preço/comida/serviço.

Me explico: Se quiséssemos simplificar, poderíamos dividir os fatores de qualidade para a restauração em três partes:

1. Ambiente/Localização/Público
2. Qualidade do Cardápio/Carta de bebidas
3. Serviço e praticidades

É impressionante o tamanho da discrepância que há em São Paulo entre essas partes:

1. Normalmente, os restaurantes são bonitos. Em alguns casos, são esplendorosos, cheios de luzes e vidro e paredes de metros e metros de altura forradas de garrafas de whisky e vodka importada. Imagino que os arquitetos por aqui ou se matam pelos trabalhos fabulosos ou se esbaldam com a quantidade de demanda.

2. A comida, é claro, varia muito. Você pode comer no ““. comida ultra-contemporânea em doses homeopáticas - foi isso o que me contaram, eu ainda não corri o risco -, pode escolher uma das zilhões de bilhares de churrascarias gigantescas ao estilo “” e ““. O japonês pode ser simples e rápido, pode ser tradicional e rico em opções, pode ser luxuoso, pode ser desconfortável.

Acho que é o caso de fazer notar a diferença entre restaurantes originalmente cariocas e suas novas sedes em São Paulo: enquanto no Rio casas como o “” e o “” são pequenas e acolhedoras, discretas com a meia-luz e a decoração quase artesanal, na capital paulistana os mesmos restaurantes reluzem em vidro e lâmpadas, vitrines gastronômicas.

3. A qualidade média do serviço, porém - em todos os níveis de restaurante - é desesperadora: os garçons não sabem o que estão fazendo - nem como, nem quando - não conhecem os produtos com os quais estão trabalhando e não sabem se expressar.

Enquanto é perfeitamente possível comer muito bem e sem pagar caro, mesmo em um ambiente bonito e com serviço adequado como no “Nam Thai”, alguns lugares até muito badalados e “bem freqüentados” como um “Bar d’A Rua” estorquem seus clientes até o último centavo sem oferecer muito em troca (além do público que, sabe-se lá porque, realmente se dedica ao lugar).

Bar d’a Rua - público seleto, serviço desastroso e preços salgadinhos.

Não quero ser leviano e reclamar à toa, sem conhecer ainda os 12.497 restaurantes que não visitei. Me surpreende, porém, que uma cidade cosmopolita e rica, com seus investidores exigentes e metódicos, ainda não tenha descoberto que são as pessoas as partes mais importantes de qualquer negócio, o que dizer de um negócio tão visceralmente humano quanto a alimentação.

E o que tenho visto aqui, é que mesmo com todas as possibilidades de acesso à informação, todo o dinheiro, toda a multitude de chances de fazer dos restaurantes lugares completos e únicos, na maioria dos casos há um completo despreparo justamente das pessoas.

Pra não terminar com esse ar de “que porcaria!”, aí vai uma das melhores barganhas que já vi: a rede , de origem paranaense, que aportou em São Paulo no ano passado com uma estrutura invejável: através de sólidas parcerias com os importadores, a loja oferece em suas prateleiras uma ampla seleção de vinhos ao mesmo preço do importador.

Agora o grande lance: basta pegar a garrafa na prateleira, levá-la até a mesa e comer da comida dos chefs Rodrigo Martins e Jefferson Rueda por um preço MUITO convidativo.

Vino! - bons preços, bom atendimento, boa oportunidade.

Venho escrevendo este artigo há quase um ano - segundo o meu computador, desde 31 de março de 2007, à 00:33. Quis esperar, visitar, ouvir, descer do tamanco. Vou seguir perambulando, experimentando e ouvindo, com a intenção de renovar as minhas impressões e encontrar serviços surpreendentemente bem-feitos por aí. Espero por vocês.

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Tags: adega, loja, polêmica, restaurante, São Paulo, serviço de mesa

Sobre Mim

Monday Feb 18, 2008
A meu pedido, já há alguns meses, uma querida jornalista de eno-gastronomia foi gentil em dar uma lida no blog e enviar-me suas opiniões. Ela foi enfática em ressaltar: “Acho que você poderia se identificar um pouco mais. Acho que ajuda a criar a confiança no leitor sobre quem é este cara que está escrevendo sobre vinhos.”

Demorou, mas decidi escrever (talvez um pouco demais) contando como foi que vim parar aqui. Pra quem quer ganhar confiança, ou não tem medo de perder a que talvez já tenha, coragem, lá vamos nós:

Tive a boa estrela de estudar meu segundo grau numa escola um tanto diferente, mas que, como toda escola, oferecia aos estudantes oportunidades pelo menos anuais de apresentar seus trabalhos e demais criatividades para os pais e colegas.Nessa época, como bom adolescente, eu gastava boa parte do meu tempo útil imaginando coisas para fazer da vida ao invés de prestar atenção às aulas de Latim - e acredite, em 4 anos há muito tempo para imaginar, enquanto o professor recita as Catilinárias.

 

Marcus Porcius Cato (acima), autor das Catilinárias:
Dum praedicaba
Nazareno, cogitatione Beda iter faceba.

Um dos muitos esboços que fiz, junto a tabuleiros de lig-4, batalha naval e jogos de palavras absurdos, foi uma espécie de taverna, inspirada por algum lema latino do porte de “In Vino Veritas”, com balcão e bebidas e ares de antro de rufiões e soldados que, após alguns dias de maquinações mentais e a colaboração de outras mentes férteis, veio a tornar-se o Ad Poculum Vini (Ao Copo de Vinho), provavelmente o primeiro restaurante estudantil da escola, durante a famigerada feira de cultura.

Com um pouco de pesquisa e excesso de imaginação, criamos um barzinho escuro e super-aquecido pelo teto baixo de tecido utilizado para compor uma ambientação. Movido a tortas, pães, chás exóticos, música de época, figurinos estrambólicos e qualquer coisa que tenhamos podido empurrar como “medieval”, o restaurante desencadeou um processo do qual muitos saíram ilesos, mas eu não.

Mais ou menos na mesma época, comecei a trabalhar como garçon em uma padaria/bistrot que é referência há muito em Belo Horizonte, onde passei a tomar contato com as bases da cozinha internacional: ingredientes, métodos de cocção, receitas tradicionais. A influência que tiveram esse lugar e as pessoas que eu conheci aí nas minhas escolhas futuras poderia ser descrita como criminosa por meu pai, que alimentava não muito secretamente uma esperança de que eu viesse a me formar em Direito ou algo que o valesse.

A primeira Casa

Era recorrente que as noitadas entre os amigos se transformassem em pequenas orgias alimentares e eu passei a integrar o time dos que iam para o fogão, sem maiores motivos além do de que tínhamos talvez mais paciência e um risco menor de arruinar a comida que os outros. Enquanto isso, na Sala da Justiça (Gastronômica), eu aproveitava qualquer oportunidade de trabalho pra sacar um dinheirinho enquanto aprendia aqui e ali a fazer alguma coisa da vida, participando de feiras de gastronomia e eventos com a padaria.

A coisa tomou rumo mais definido quando a gerente da casa decidiu montar seu próprio restaurante - o infelizmente falecido Santonim - e me deixar temporariamente no lugar dela. As conseqüências foram desastrosas: o temporariamente se alongaria por cerca de dois anos, durante os quais eu passei a freqüentar degustações de vinho, conhecer fornecedores, participar ativamente do dia-a-dia do restaurante e organizar uma equipe que unia o que se havia peneirado do grupo que eu integrava com gente selecionada e treinada pelo meu próprio punho, me levando a duas idéias que me condeneriam até hoje.

Este post conta um pouco (demais) da minha história. Se quiser passar a algo um pouco menos maçante, clique aqui.

Como ia dizendo, gastei algumas dúzias de horas da minha vida caminhando quilômetros em um salão de 30 metros quadrados. Nesta época, ainda na escola secundária, alimentamos por algum tempo a idéia besta de ter um bar na casa de alguém, de forma a poder reunir-nos sem gastar uma fortuna, escolher boa música e beber coisas boas.

Não sei bem quando, as mesmas maquininhas que construíram o Ad Poculum Vini deram para elaborar um bar móvel, que tivesse como servir minimamente bem, sem as obrigações de todo tipo criadas pelas raízes (inclusive freqüência). Foi no Santonim, após um dos turnos de trabalho na padaria, que expus pela primeira vez essa idéia.

Enquanto isso, me tornei aos poucos o responsável pela carta do restaurante, passando a experimentar vinhos semanalmente e selecioná-los. Comecei a comprar revistas e logo livros, em busca de justificar minhas escolhas com um mínimo de referências e foi justamente aí, em especial através de uma cliente que era também fornecedora, que o vinho passou a me perseguir. Comecei a organizar o serviço das degustações (os míticos “Flights de Vinho” da Dulce) e a experimentar cada vez mais vinhos de variados tipos e níveis de qualidade.

Por volta de um ano depois daquela noite no Santonim, uma das minhas companheiras de trabalho, que é atriz mas sempre esteve enfiada na cozinha, me perguntou se eu não tinha uma idéia pra um negócio em que ela pudesse investir o dinheiro que tinha guardado. Essa conversa somou-se à do restaurante e durante cerca de 2 anos fomos três escravos do trabalho, praticamente planejando e implementando um novo restaurante a cada mês. Foram, no total, 10 diferentes restaurantes criados em vários ambientes pela cidade, muitas vezes “reformados” com nossas próprias mãos (e as de alguns queridos amigos).
O Itinerante
Mais ou menos por aí, inaugurou-se a primeira turma do curso de Gastronomia em Belo Horizonte. Juntei minhas fichinhas morais e informei a meu pai que era isso aí mesmo que eu iria estudar e fui lá fazer a inscrição. O curso provocaria um verdadeiro malabarismo de horários, divididos entre o trabalho na padaria, meus estudos pessoais de Logosofia, um namoro intenso e o projeto meio louco do Itinerante.
Este blog começou como um lugar para anotar os textos em andamento que prometi mandar com regularidade para o site do eno-jornalista mineiro Gerson Lopes. Degringolou para um experimento de redação sobre vinho e comida mas agora parece que ando escrevendo só pra mim, já que comecei a me aprofundar nos temas do meu curso deste ano.
Esta é a última (já vem tarde) parte da explicação de como cheguei aqui. Aqui você pode ver uma versão cômica do Batman em espanhol, pra rir um pouco também.
Como dizia, em meio ao turbilhão de coisas que arranjei para fazer, essa história de provar vinho e escolher vinho e montar uma carta aqui outra ali, percebi que dispendia um tempo (e um dinheiro) em me preparar para o assunto que estava começando a se tornar “inconveniente” para as outras coisas.

Decidi que ou me envolvia de fato com o negócio ou parava de vez e, claro, parar de vez não me pareceu a melhor escolha. Aproveitei uma vaguinha que me parecia promissora numa distribuidora, já que eram vinhos com os quais eu tinha bom contato e não havia um exército de outros iguais a mim com quem poderiam me confundir lá.

Entre minhas tarefas estavam as habituais visitas comerciais a restaurantes para fazer vendas, controle de consignações e um socialzinho meio sonolento, mas a parte bacana estava lá, me esperando: comecei a montar organizadamente fichas técnicas “humanizadas”, com um conteúdo que interessa a quem simplesmente gosta de vinho e ao pessoal dos restaurantes, ou seja, nada de dosagens químicas e o mínimo possível de enologiquês, que interessa só a quem se interessa de fato.

Com ânsia de uma preparação mais “formal”, escrevi ao estrangeiro perguntando e descobri que talvez a melhor forma fosse me formar aos poucos pelo WSET, um sistema inglês de qualificação em vinhos que pode levar (dizem) ao título de Master of Wine. Além disso, assumi o comando de algumas degustações e tive de realizar um estudo para e a criação de fato de um wine bar, que me fez perder um bocado de cabelos e de quilos, mas, ora bolas!, era o que fazia meus dias divertidos.

Uma das visitas mais sociais a um restaurante.
Dois garçons ao fundo me observam apresentando nosso catálogo ao proprietário e ao sommelier.

Uma pasta com as fichas e uma recepção a estrangeiros com tradução instantânea de degustação acabaram despertando a atenção do nosso importador em São Paulo e minha chefe em Belo Horizonte certamente fez sua parte para ajudá-lo a se convencer de como eu poderia ser-lhe útil. Depois de alguns meses de conversas e rodeios, vim a São Paulo e fiquei por aqui, comendo, bebendo e perambulando por aí…

Espero não ter desapontado ninguém (se é que alguém chegou até aqui). Bom proveito e bons vinhos!

Agora acabou!
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Be Fresh

Wednesday Nov 14, 2007
Descobri ontem acompanhado da Gaya um refúgio no Itaim: recém-inaugurado, o Be Fresh é um restaurante de comida alternativa e, mais precisamente, “saudável”. Normalmente, eu fujo um pouco de vegetarianismos e outros movimentos meio hippie-gastronômicos, mas o lugar me fisgou rápido, só de olhar.O espaço é muito agradável: amplo, claro e com uma brisinha leve constante. A sensação é de estar no Rio de Janeiro e não no meio do concreto paulistano.
O serviço, apesar de talvez ainda um pouco verde, sem prática, é um dos melhores que eu já encontrei em São Paulo (paradoxal, não?). Os garçons são jovens, atenciosos e conscientes dos produtos que estão servindo.
Be Fresh
Be Fresh - Serviço adequado, boa comida e ambiente leve e confortável.

Importante: come-se de tudo. Há muitas saladas, é claro, mas também sanduíches (em pães muito bons, que parecem produzidos na própria casa), pratos quentes e entradas. Querendo, come-se até hamburguer ou carnes grelhadas. Vale provar o sanduíche italiano no pão com linhaça e o prato de camarões num misto de arroz selvagem e integral com cravo, mas sem enjoar.

Os sucos, processados em centrífuga, são densos e saborosos, doces sem nada de açúcar adicionado: a centrífuga processa bem as frutas, separando a parte fibrosa e colocando todo o resto no copo. Há combinações interessantes, mas os simples tangerina e melancia refrescantes e gostosos.

Um problema: as cadeiras são muito confortáveis, mas do tipo que não permitem apoiar as costas enquanto se come… há também sofás bem agradáveis e conexão wi-fi gratuita. Bom pra tomar algo e trabalhar ao mesmo tempo.

Tags: comida saudável, restaurante, serviço de mesa

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