Pra quem não viu ainda, tem um breve debate sobre as pontuações na diVino desse mês. Alexandra Corvo queima pestanas achando absurdo pontuar e me identifico muito com os argumentos dela, embora não com as conclusões.
Fiquei triste com quão pouco extenso o espaço dedicado ao debate e nenhum comentário sobre os critérios utilizados pelos degustadores para avaliar os vinhos que eles provaram durante a conversa… Continuo com um rascunho aqui sobre superficialidade sendo escrito há um ano - e tentando não deixar um rabo pra sentar em cima ao falar dos outros.
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Preparando material de divulgação, tenho aqui em mãos o mais recente “Parker’s Wine Buyer’s Guide”, sobre o qual ainda pretendo fazer um post. Para não deixar a peteca cair no debate sobre as pontuações, traduzi a opinião do Parker sobre as pontuações e o descritivo de como ele pontua. Acho válido e importante considerar o que ele diz.
Notem:
a importância que é dada aos vinhos de 85 a 89 pontos;
quantas vezes ele repete que as notas refletem a opinião dele;
o quanto é importante o fato de que há técnica e método envolvidos;
o conteúdo indispensavelmente importante do último parágrafo.
Os parênteses-com-pontinhos são meus, assim como as partes negritadas, em itálico e sublinhadas do texto.
“Quando possível, a maioria das minhas degustações são feitas em grupos similares, em condições de degustação às cegas simples; em outras palavras, os mesmos tipos de vinhos são comparados uns com os outros e os nomes dos produtores não são conhecidos. As notas refletem uma visão independente, crítica, dos vinhos. Nem preço nem a reputação do produtor afetam as notas de nenhuma maneira. Gasto três meses de todos os anos em degustações nos vinhedos. Durante os outros nove meses do ano, devoto seis - e às vezes sete - dias da semana a degustações e a escrever. Não participo em competições de vinhos ou degustações para o público por várias razões, mas principalmente pelas seguintes: 1. prefiro provar de uma garrafa inteira; 2. Acho essencial ter copos profissionais para degustação de tamanho e limpeza adequados; 3. As temperaturas dos vinhos devem ser corretas; 4. Prefiro determinar a alocação de tempo para o número de vinhos que irei avaliar.
As notas numéricas são um guia sobre o que penso do vinho cara-a-cara com seus pares: vinhos classificados abaixo de 85 pontos são bons a excelentes e qualquer vinho avaliado em 90 ou mais pontos será excepcional para seu tipo em particular. Enquanto alguns irão sugerir que pontuar não é muito adequado a uma bebida que vem sendo romanticamente louvada por séculos, vinho não é diferente de nenhum outro produto de consumo. Há padrões específicos de qualidade que profissionais dedicados do vinho reconhecem e há vinhos-referência contra os quais os outros podem ser julgados. Não sei de ninguém com 3 ou 4 taças de diferentes vinhos à sua frente, independente de quanto bons ou ruins os vinhos possam ser, que não possa dizer “Eu prefiro este a aquele”. Dar pontos a vinhos é simplesmente pegar a opinião de um profissional e aplicar um sistema numérico a ela de forma consistente. Ainda mais: pontuar permite rápida comunicação da informação a pessoas experientes e novatas da mesma maneira.
A pontuação dada a um vinho específico reflete a qualidade daquele vinho em seu melhor. Frequentemente digo às pessoas que avaliar um vinho e dar uma nota a uma bebida que irá mudar e evoluir por até uma década ou mais é análogo a tirar uma fotografia de um corredor de maratona. Muito pode ser afirmado, mas, como um objeto que se move, o vinho irá evoluir e mudar. Tento re-degustar vinhos obviamente muito afetados pela rolha ou de garrafas defeituosas, já que o vinho de uma única garrafa não indica um lote inteiro danificado. Se re-degustar não é possível, guardo meu julgamento. Muitos dos vinhos descritos foram provados muitas vezes e sua nota representa uma média cumulativa da performance em degustações até hoje.
Aqui, portanto, está um guia geral para interpretar minha escala numérica:
90-100: Equivalente a um A e dado para um esforço excepcional ou especial. Vinhos nesta categoria são os melhores produzidos para seu tipo. Embora haja uma grande diferença entre um 90 e um 99, os dois são “notas altas”. Poucos vinhos na verdade entram nesta categoria, simplesmente porque não há muitos vinhos realmente profundos.
80-89: Equivalente a um B, e tais vinhos, em particular entre na faixa dos 85 a 89 pontos, são muito bons. Muitos dos vinhos que caem nesta categoria são freqüentemente de excelente valor, também. Tenho muitos destes vinhos na minha adega pessoal.
70-79: Representam o C, ou uma nota média, mas obviamente 79 é uma nota muito mais desejável que 70. Vinhos que recebem notas de 70 a 79 são geralmente vinhos simples e agradáveis, a quem falta complexidade, caráter ou profundidade. Se baratos, podem ser ideais para se beber descompromissadamente.
Abaixo de 70: Uma nota D ou F, dependendo de onde você estudou, é um sinal de vinho desbalanceado, defeituoso ou terrivelmente insípido ou diluído que é de pouco interesse para o consumidor.
(…) Pontuações são importantes para que o leitor possa medir a colocação geral qualitativa de um vinho entre seus pares por um crítico profissional. No entanto, é também vital considerar a descrição do estilo do vinho, a personalidade, o potencial. Nenhum sistema de pontuação é perfeito, mas um sistema que permita flexibilidade nas notas, se aplicado pelo mesmo degustador experiente sem preconceitos, pode quantificar níveis de qualidade de vinho e pode ser uma referência responsável, confiável, não-censurada e altamente informativa que oferecer ao leitor o julgamento de um profissional. Contudo, não pode nunca haver susbtitutos para seu próprio gosto nem nenhuma instrução melhor que provar o vinho você mesmo.”
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Opa, opa! Gostei do movimento gerado pelo último post. Para adicionar conteúdo ao debate, um trecho de entrevista da Veja com a especialista Jancis Robinson, em que ela fala justamente sobre a diferença de opiniões entre os avaliadores (os negritos e itálicos são resultado da minha intromissão):
“Veja – Há quatro anos, a senhora deu uma nota baixíssima a um vinho bem avaliado por outro crítico respeitado — e controverso — , o americano Robert Parker. Afinal, chegou-se à conclusão de quem estava certo?
Jancis – A verdade é que não existe certo e errado na apreciação de um vinho. Todos têm preferências individuais e sensibilidades diferentes. Portanto, uma discordância não surpreende, principalmente quando se trata de um Chatêau Pavie 2003, que levou ao extremo sua maturidade e o nível de tanino. Recentemente, voltei a prová-lo e mantive minha opinião. Tenho certeza de que Parker manteve a dele.
Veja - O que significa o fato de dois juízes respeitados terem opiniões opostas sobre o mesmo vinho?
Jancis – Que a análise de vinho é pessoal. Por isso, acho que reduzir um vinho a uma nota é tolo, ilusório. Vou dar um exemplo. Um júri profissional como o Grand Jury European que, como se sabe no meio, é mais favorável a vinhos modernos, divulgou um ranking onde o Château Pavie 2003 estava mal colocado. O mesmo vinho, ao ser avaliado por um grupo de profissionais ingleses, ficou numa posição intermediária.”
Beda (fora da entrevista, porém) - É interessante notar que a tendência atual em avaliações sérias (ao menos na opinião de gente que eu respeito) é a de fazer painéis de degustadores que se alternam na degustação dos vinhos e que, ao final, debatem em grupo os resultados das avaliações, antes de concluir as notas e anotações, questionando e sendo questionados sobre suas opiniões e sensações, diminuindo as margens de erro por falsas impressões, mal-entendidos e grandes contrastes de experiências e compreensões. Nada como a velha e boa troca de idéias, não?
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