Rabiscado por Beda | Em Debate, Matérias, Tecnologia do Vinho
Friday Aug 8, 2008
Lendo hoje o teaser “Screwcaps are best: Decanter verdict” para a matéria deste mês da revista inglesa - 50 Reasons to Love Screwcap - que conta como todos os editores, degustadores, faxineiros e estagiários da revista consideram screwcap a melhor forma de fechar vinhos, me intrigou um pouco a maneira um tanto… festiva, de publicarem a própria opinião.
Mesmo sabendo que esta é considerada a mais imparcial e independente revista do meio e mesmo sendo pessoalmente a favor de uma utilização bastante ampla de screwcap, fiquei me coçando com a quantidade de confete que o editor imprimiu (trocadilho infame) à opinião da redação, já que este é um tema altamente econômico e certamente lobístico do mundo do vinho.
O mercado brasileiro, é claro, segue refutando as tampas como se nada houvesse acontecido, embora tenha aprendido bastante rapidamente a devolver vinhos “estragados” independente da origem do problema. Entende-se: o charme do saca-rolhas é grande e a insegurança sobre a opinião da mídia (justificadamente) é muita, enquanto nariz e oportunidade para aprender a encontrar defeitos falta…
Há pouco tempo recebi de um produtor australiano um email solicitando que decidíssemos qual seria nossa posição oficial sobre screwcap para o próximo “período”, tendo em vista que a linha de engarrafamento dele já está voltada para o uso das tampas de rosca e o custo de manter uma linha ambivalente está crescendo muito.
De acordo com o produtor, dos pouco menos de 50 países que compõem o mercado de seus vinhos, mais ou menos a metade insiste em utilizar a rolha ou está em dúvida ainda sobre como proceder (Argentina, Uruguay, Barbados, Brasil, China, Croácia, Fiji, França, Islândia, India, Indonésia, Israel, Malásia, México, Nova Caledônia, Noruega, Ilhas do Pacífico, Romênia, Suíça, Taiwan, Turquia, Emirados Árabes Unidos utilizaram rolhas em todos os seus vinhos tintos até o momento, enquanto Bélgica e Luxemburgo já solicitaram uma transição gradual nos próximos 3 anos e todos os grandes consumidores mas nem tão grandes produtores já recebem TODA a linha - inclusive rótulos de alto calibre e custo - fechada a rosca.
É importante notar que entre os países que ainda resistem à screwcap (particularmente em vinhos australianos, notadamente reconhecidos por utilizar amplamente o fechamento alternativo), são mercados muito significativos para o vinho somente a França e a Argentina (nenhum dos outros ultrapassou o próprio Brasil em volume de consumo em 2005!).
Volto a dizer, então: é fato que screwcap, além de baratear a produção, garante uniformidade entre as garrafas e anula o risco do vinho se deixar afetar pelo TCA e vale lembrar que a Austrália vem engarrafando seus vinhos assim já há 30 anos e praticamente toda a produção neo-zelandesa recebe as tampinhas. Por outro lado, ninguém sabe ainda como irão se comportar os “grandes” vinhos com o passar do tempo. O que não dá pra engolir é gente falando que “não compro vinho com tampa de rosca”…
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Rabiscado por Beda | Em Debate
Wednesday Apr 18, 2007
Devido à absoluta falta de produção durante o mês de abril, seguem textos elaborados para o site do enófilo
Gerson Lopes. Quem sabe em Maio não teremos novidades…
Uma das maiores polêmicas do mundo viti-vinícola, a tampa de rosca ou screwcap, em inglês, está invadindo nossas casas (ou adegas, seria melhor). Produtores de todo o mundo, desde os pioneiros neo-zelandeses e australianos até os tradicionalistas franceses estão substituindo por experimentação, plena confiança ou resignação, suas tradicionais rolhas de cortiça pelas tampinhas metálicas de girar.
Robert Parker, o mais renomado guru dos vinhos em todo o mundo, não deixou passar em branco quando fez suas “12 predições sobre mudanças sísmicas que influenciarão a forma como compramos, o que compramos e quanto pagamos” em vinho, na revista americana Food and Wine. Segundo ele “vinhos engarrafados com rolhas serão minoria em 2015”, pois mais e mais vinícolas de todos os níveis estão mudando para as roscas os vinhos a serem consumidos entre 3 e 4 anos (cerca de 95% por cento dos vinhos do mundo).
O chefe de adega Michael Kerrigan se surpreende com a resistência de parte do público em entrevista à Liquor Watch da Austrália: “É estranho que exista, uma vez que algumas das mais caras bebidas alcóolicas do mundo (single malts, etc.) são fechadas com rosca e têm total aceitação do mercado”.
O que as tampas de rosca possuem de tão importante que tantos produtores optam por substituir o charme das antigas rolhas por tampinhas metálicas?
1. Em primeiro, e mais importante, lugar: elas não afetam o vinho.
As rolhas, elaboradas com a casca do sobreiro, estão sujeitas a fungos e contaminações que podem modificar diretamente o vinho.
2. Não estão sujeitas a movimento.
Por serem seladas com alta-pressão, mudanças de temperatura e pressão interna da garrafa não podem permitir a entrada de oxigênio nas garrafas, como podem quando são suficientes para movimentar as rolhas.
3. O isolamento é completo, impedindo a oxidação prematura do vinho.
De forma que podemos esperar de cada garrafa exatamente o que se declara dela, sem variações abruptas de características e de qualidade.
Sem dúvida nenhuma o vinho está imageticamente relacionado às rolhas de cortiça e aos saca-rolhas, ao ritual do corte das cápsulas e ao trabalhoso (e às vezes cansativo) esforço de se retirar a rolha. Não teremos, porém, escapatória: cada vez mais vinhos, de diferentes níveis de qualidade utilizarão as novas, seguras, mas menos estéticas tampas de rosca.
A Screwcap Initiative, grupo neo-zelandês de viti-vinicultores que difunde a utilização da tampa de rosca, possui um completo site com todas as informações necessárias sobre o funcionamento e utilização das tampas de rosca.
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Rabiscado por Beda | Em Debate
Friday Mar 30, 2007
Se você não leu a primeira parte, clique aqui.
Lição Três: Sobre como eu, que estou pagando e não gostei do vinho, mando devolver a garrafa, que está ruim.
Pois é, meus amigos. Eu gostaria de ter um “dinheiros” (D$, moeda corrente no mundo da imaginação dos clientes de restaurantes) para cada garrafa bouchonée que foi tomada como se fosse um Grand Cru Classé de alguns milhares de dólares, enquanto inúmeras garrafas de vinhos em excelente estado de conservação são devolvidas aos garçons por “certamente estarem avinagradas”.
1. Bons produtores, bons importadores e bons restaurantes MUITO raramente permitem que um vinho que possa estar “avinagrado” chegue até mesa.
Para que o vinho se torne GRADUALMENTE vinagre, é necessário que ele entre em contato com a bactéria que realiza a fermentação acética E, vejam bem, E haja contato com o oxigênio. Ou seja: garrafa limpa, uvas saudáveis e rolhas de mínima qualidade não geram vinhos avinagrados assim, à toa.
2. Reconhecer um vinho bouchonée requer treino. Algumas vezes, não se percebe no nariz, mas sim na boca. Outras vezes, aromas desagradáveis de redução (fenômeno físico-químico que acontece na ausência de oxigênio) ou por um excesso de conservantes utilizado pelo produtor se apresentam no início mas logo desaparecem, confundindo o desavisado.
3. (e mais importante do que todo o resto)
Não gostar do
vinho não implica em poder devolvê-lo. Se foi uma indicação do sommelier ou garçon, faça-o saber de quais características no
vinho você não gosta e pense duas vezes antes de aceitar nova sugestão, mas não obrigue os outros a arcar com seu próprio gosto.
Lição Quatro: Ainda nao entendi o que é boxonê, mas vinho com rolha de prástico eu não tomo.
ou
Nem tudo que reluz é ouro, nem tudo que protege é cortiça.A rolha ainda é, sim, o melhor dos vedantes para as garrafas. Porém, é também um produto natural, escasso, de alto custo de produção (um sobreiro leva 40 anos para produzir a primeira casca de boa qualidade e depois produz somente mais 4 “safras”, uma a cada dez anos) e sujeito a contaminações que podem afetar o
vinho.Bouchonée é, portanto, o
vinho que foi afetado pela rolha ou, mais precisamente, por uma substância produzida por um microorganismo, chamada TCA, ou tri-cloro-anisol. As rolhas sintéticas, assim como as tampas de rosca e outras formas de vedação menos conhecidas, foram criadas para procurar emular as propriedades da rolha diminuindo o custo e anulando o risco de contaminação.
Embora ainda se saiba bem pouco sobre alguns aspectos dos novos vedantes, há experiências bem-sucedidas com todos eles, inclusive com relatos (muitos) de vinhos submetidos a guarda de 30 anos com tampas de rosca.
Donde concluo eu que, se o vinho está bom, não interessa como foi fechado…
Para ler a terceira parte, clique aqui.
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