{"id":1388,"date":"2011-08-07T21:17:14","date_gmt":"2011-08-07T21:17:14","guid":{"rendered":"https:\/\/bsmp.com.br\/peripecias\/?p=1388"},"modified":"2011-10-16T17:40:33","modified_gmt":"2011-10-16T17:40:33","slug":"o-problema-dos-aromas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bsmp.com.br\/peripecias\/2011\/08\/07\/o-problema-dos-aromas\/","title":{"rendered":"O problema dos aromas"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: small;\">&#8220;Che gusto c&#8217;\u00e8 mangiare se non se ne pu\u00f2 parlare?&#8221;<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"justify\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/bsmp.com.br\/peripecias\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/1.Martin-Buveur-Civilise.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"margin: 0px 8px 0px 0px; display: inline; float: left;\" title=\"1.Martin-Buveur-Civilise\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bsmp.com.br\/peripecias\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/1.Martin-Buveur-Civilise_thumb.jpg?resize=0%2C0&#038;ssl=1\" alt=\"1.Martin-Buveur-Civilise\" width=\"0\" height=\"0\" align=\"left\" \/><\/a>\u201c<em>Que gosto existe em comer se n\u00e3o se puder falar sobre a comida<\/em>?\u201d &#8211; pergunta Rossano Nistri, em seu &#8220;Dire, Fare, Gustare&#8221;, que \u00e9 um manual para a conscientiza\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de verdadeiros professores do gosto, publicado pelo bra\u00e7o editorial do grupo Slow Food.<\/p>\n<p align=\"justify\">O movimento liderado pelo genial <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Carlo_Petrini\" target=\"_blank\">Carlo Petrini<\/a> tem um projeto com o escopo de difundir nas escolas o ensino \u00e0s crian\u00e7as sobre sua comida, mas n\u00e3o com o foco \u201cnutricional\u201d ou o da \u201cboa alimenta\u00e7\u00e3o\u201d. De maneira objetiva e met\u00f3dica, Nistri, Petrini e seus companheiros querem mostrar \u00e0s crian\u00e7as que o nosso corpo \u00e9 a melhor ferramenta que temos para explorar o mundo ao nosso redor, chamando-lhes a aten\u00e7\u00e3o para o que comem e bebem e, acima de tudo, fazendo com que tratem de falar, escrever, contar sobre o que provam.<\/p>\n<p align=\"justify\">A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 parte da experi\u00eancia humana e, em grande medida, nos fez (e faz) quem somos. A capacidade de transmitir aos outros conclus\u00f5es sobre a pr\u00f3pria experi\u00eancia e interpretar as experi\u00eancias alheias turbinou o desenvolvimento dos primatas que gradualmente se tornaram o que chamamos de humanos, fazendo de n\u00f3s animais particularmente diferentes dos outros.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por\u00e9m, quando se trata de comunicar sobre o <em>gosto<\/em>, o <em>sabor <\/em>das coisas, existe um grande problema: falar dos sabores de um prato ou da textura de um vinho n\u00e3o \u00e9 como descrever uma situa\u00e7\u00e3o, um objeto ou um percurso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Hugh Johnson, veterano do mundo do vinho contempor\u00e2neo, se queixa de que \u201c<em>toda express\u00e3o usada tem de ser emprestada de algum outro sentido, exceto as quatro palavras doce, \u00e1cido, salgado e amargo<\/em>\u201d. Ele, assim como tantos outros de n\u00f3s, sabe o quanto \u00e9 dif\u00edcil colocar em palavras as sensa\u00e7\u00f5es t\u00e1teis, arom\u00e1ticas, de sabor que captamos ao provar algo. \u201c<em>As palavras seguem pesadamente ap\u00f3s as impress\u00f5es claras, precisas, mas indefin\u00edveis da l\u00edngua<\/em>\u201d, conta na autobiografia <a href=\"http:\/\/www.amazon.com\/Life-Uncorked-Hugh-Johnson\/dp\/0520248503\" target=\"_blank\">A Life Uncorked<\/a>.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 fato que a dificuldade em falar sobre as pr\u00f3prias sensa\u00e7\u00f5es em degusta\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 exclusiva dos novatos ou dos amadores. Al\u00e9m de Johnson, Emile Peynaud, o grande mestre da enologia e da degusta\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m reconhece a gravidade do problema, em um dos seus livros mais importantes, \u201c<a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/scripts\/resenha\/resenha.asp?nitem=22170402&amp;sid=22025518313817703855080967\" target=\"_blank\">O Gosto do Vinho<\/a>\u201d:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201c<em>Quando tentamos falar algo sobre vinho em profundidade, encontramos rapidamente as limita\u00e7\u00f5es de nossos meios de nos expressar. Precisamos ser capazes de descrever o indescrit\u00edvel. N\u00f3s, degustadores, nos sentimos de alguma maneira tra\u00eddos pela linguagem<\/em>.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">A pergunta mais comum (ou, pelo menos, a que mais me incomoda) que me fazem amigos e alunos rec\u00e9m-iniciados \u00e9 se eu realmente percebo nos vinhos \u201caqueles\u201d perfumes que eles ouvem ou leem as pessoas descrevendo por a\u00ed. Faz sentido: de uma hora pra outra, vinho, que antes cheirava a vinho, passa a ter \u201caromas de amoras-selvagens, framboesas, cassis e cerejas\u201d, um certo \u201cretrogosto de caixa de charuto, folhas secas e estrebaria\u201d e deixa na boca \u201csensa\u00e7\u00e3o de mineralidade, pedra molhada e f\u00f3sforo riscado\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o \u00e9 de se espantar que os degustadores de vinho se tornem alvo de esc\u00e1rnio: desde o leve sarcasmo diante do apaixonado por vinhos durante um jantar informal, passando por artigos publicados pela imprensa (vide mat\u00e9ria da Veja de dezembro de 2004) e at\u00e9 <a href=\"http:\/\/www.watchcartoononline.com\/the-simpsons-season-20-episode-18-father-knows-worst\" target=\"_blank\">um epis\u00f3dio dos Simpsons<\/a>, o vocabul\u00e1rio, os movimentos caricatos, o simples fato de se pretender escolher com base no pr\u00f3prio gosto se tornam fonte de intermin\u00e1vel\u00a0 zombaria.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"background-image: none; padding-left: 0px; padding-right: 0px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto; padding-top: 0px; border-width: 0px;\" title=\"Homer Simpson Super Taster\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bsmp.com.br\/peripecias\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/simpson20182.png?resize=0%2C0&#038;ssl=1\" alt=\"\u201c-Try these beets. I boiled all the red out.&quot; &quot;-I still taste overtones of pink!\u201d\" width=\"0\" height=\"0\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\">Boa parte da culpa vem do tamanho da liberdade que n\u00f3s, amantes e profissionais do vinho, demos a n\u00f3s mesmos ao tentar resolver um problema t\u00e3o antigo e que nem Plat\u00e3o nem S\u00f3crates destrincharam a contento e continua a ser alvo de debate de fil\u00f3sofos e cientistas.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201c<em>A linguagem po\u00e9tico-anal\u00f3gica, na degusta\u00e7\u00e3o, funciona com facilidade porque oferece a rota de fuga para o momento em que faltam palavras mais precisas para exprimir sensa\u00e7\u00f5es particulares<\/em>\u201d analisa Nistri. Deixamos nossas mentes vagarem e nossas palavras descreverem o que <em>pensamos <\/em>que est\u00e1vamos sentindo, sem nos preocupar com quem est\u00e1 ouvindo e lendo e nem com como isso pode ser interpretado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas, afinal: de onde v\u00eam os perfumes que os degustadores descrevem? Porque um \u201cmero mortal\u201d se sente incapaz de perceb\u00ea-los? Pessoas no mundo inteiro sentem os mesmos aromas nos vinhos?<\/p>\n<p align=\"justify\">A seguir, cenas dos <a title=\"O problema dos aromas \u2013 Parte 2\" href=\"https:\/\/bsmp.com.br\/peripecias\/2011\/10\/04\/o-problema-dos-aromas-parte-2\/\">pr\u00f3ximos cap\u00edtulos<\/a>\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Componentes qu\u00edmicos s\u00e3o a origem dos aromas<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Como perceber e descrever esses aromas<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Pra qu\u00ea, mesmo, serve isso?<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8211; Descrevendo vinhos com seus aromas prediletos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Che gusto c&#8217;\u00e8 mangiare se non se ne pu\u00f2 parlare?&#8221; \u201cQue gosto existe em comer se n\u00e3o se puder falar sobre a comida?\u201d &#8211; pergunta Rossano Nistri, em seu &#8220;Dire, Fare, Gustare&#8221;, que \u00e9 um manual para a conscientiza\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de verdadeiros professores do gosto, publicado pelo bra\u00e7o editorial do grupo Slow Food. 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